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Guardei no Armário [resenha]

Atualizado: 8 de dez. de 2020

Eu já conhecia o Samuel Gomes do seu canal no Youtube, que tem o mesmo nome do livro. Deparei-me com o título do seu livro, "Guardei no Armário", enquanto fazia uma busca (no Google) por livros com temática LGBTQIA+ para adolescentes. Ele ainda estava na pré-venda e tive a sorte de conseguir comprar um dos exemplares autografados - eu amo autográfo! Também veio junto um pin lindo demais.


Como professora politizada e que se posiciona sempre contra a homofobia, eu tenho um sonho (ai ai... rs) de um dia conseguir ler um livro com um personagem LGBTQIA+ com meus alunos. Faz tempo que procuro um livro que seja adequado para a idade deles - são adolescentes de 13 e 14 anos -, o que não é muito comum no Brasil, pois a maior parte dos livros desta temática são para adultos. Digo isso sobre o Brasil porque acompanho várias professoras e professores americanos no instagram e vejo que lá já existem muitos, muitos livros que tratam de diversidade sexual e sexualidade voltados para crianças e adolescentes. E muitos professores já leem esses livros em sala de aula. Ainda estamos atrasados.

Mas, vamos ao livro do Samuel. É um relato de experiência em que Samuel fala sobe 3 questões principais: a descoberta da sua (homo)sexualidade, suas angústias relacionadas à Igreja Evangélica e a reconhecimento da sua negritude (e do racismo). Na maior parte do livro, esses 3 aspectos de sua vida se entrelaçam, mostrando de maneira clara a importância de termos sempre em mente a interseccionalidade ao falar de minorias e de opressão. Aaah sim, além disso Samuel também morou a vida inteira na periferia de São Paulo, então os problemas de classe também permeiam a narrativa.


Eu achei o livro muito bem escrito e de uma sensibilidade incrível. Eu sou uma mulher cis e heterossexual e Samuel me deu a oportunidade de entender, desde dentro, as angústias de se descobrir gay ainda na infância, num país homofóbico, no seio de uma família conservadora e evangélica. O medo de ser descoberto, julgado, excluído, abandonado. O medo de viver experiências que, para outros jovens, são "normais", como o primeiro beijo e o primeiro amor. O medo de ser expulso da igreja e, pior, o medo de queimar no inferno por ter cometido um dos piores pecados.


Foi na internet e na comunidade LGBTQIA+ que Samuel encontrou forças para vencer esses medos e superar barreiras que eram internas. Ele encontrou, no mundo virtual, outros gays evangélicos que passavam pelo mesmo que ele e se aproximou de grupos de militantes da causa LGBTQIA+, que lutavam e trabalhavam para combater preconceitos e semear aceitação. Foi graças a essa comunidade que ele conseguiu romper com seu próprio preconceito e se aceitar. Hoje Samuel é casado com Luiz e os dois vivem em São Paulo.


É muito tocante também o texto escrito pelo seu pai, que finaliza a narrativa. De maneira muito sincera, o pai conta as dificuldades de ter um filho gay e assume suas limitações e falta de conhecimento, os quais pôde superar por causa do amor que sente pelo filho. Seu texto é, sobretudo, uma carta de amor e uma prova de que o amor parental pode, sim, superar qualquer preconceito.


Nesta nova edição, o Samuel também incluiu entrevistas com diversas personalidades, artistas e youtubers que são LGBTQIA+.


"Samuel Gomes contém em si multidões. Neste livro, o escritor desnuda todos as camadas do que significa ser um homem negro, gay, de família evangélica no Brasil de hoje. Samuel nos permite, por meio de sua história contada em primeira pessoa, conhecer o humano por trás de tudo que ele guardou em seu armário. Engana-se quem espera deste livro uma história ou de uma vítima, ou de um herói: Samuel humaniza a si e a tantos outros e outras que entrevista neste livro ao contar a história mais comum de todas: a luta para ser feliz. Amor, família, autoaceitação, ativismo, risos e choros: estão todos aqui. Samuel nos lembra, por meio deste livro, que não estamos sós. Nunca estivemos." - Thiago Amparo

Agora, vamos a pergunta de um milhão: dá pra ler "Guardei no Armário" na escola? DEPENDE. O livro tem alguns "probleminhas". Esta é a segunda edição do livro e Samuel acrescentou alguns capítulos finais nos quais ele fala sobre a situação política em que vivemos e faz críticas ao atual presidente. Além disso, no meio do livro, ele também fala sobre masturbação e há um capítulo sobre sua primeira experiência sexual. Não há nenhum detalhe sexual, mas ele conta que foi para o motel com um rapaz que conhecia apenas virtualmente.


Sendo honestos, não há no livro nada que adolescentes já não tenham lido ou visto na internet - pesquisas indicam, por exemplo, que adolescentes de 11-12 anos já foram expostos a vídeos pornográficos (muitas vezes, violentos). No entanto, sabemos que muitas cenas consideradas normais em um livro ou filme com personagens heterossexuais (como um simples beijo) podem ser consideradas ofensivas ou polêmicas quando esses personagens são homossexuais.


Eu gostei muito do livro, acho que o Samuel trata do tema de maneira muito sensível, seria um livro importante de se ler com adolescentes, pois ajudaria demais alunos e alunas que possam estar passando pelas mesmas angústias que ele passou. No entanto, é importante considerar o impacto que esses trechos teriam na sua aula, especialmente se você der aula para o Ensino Fundamental 2.


Se eu adotar este livro nas minhas aulas algum dia, volto aqui para contar como foi a experiência - espero que positiva!


O Samuel Gomes é pura simpatia, como você pode ver no vídeo abaixo.


 

Na seção PARA LER NA ESCOLA, você vai sempre encontrar resenhas de livros literários (também conhecidos como paradidáticos) que são adequados para ler com os alunos do Ensino Fundamental 2 (e do Ensino Médio, como neste caso).

 

GUARDEI NO ARMÁRIO - Trajetórias, vivências e a luta por respeito à diversidade racial, social, sexual e de gênero

Samuel Gomes

Lançado em 2020, 304 p.

Companhia das Letras


O relato de como um jovem nascido na periferia de São Paulo que superou o racismo e a homofobia para lutar pelos próprios direitos - e de muitos outros como ele -, acompanhado de diversas entrevistas com personalidades LGBTQIA+.

Indicado para: Anos Finais do Ensino Fundamental (com ressalvas) e Ensino Médio

Temas: homossexualidade, racismo, desigualdade social, religião, relacionamento familiar, conservadorismo.

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