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A menina que não queria ser top model [resenha]

Terminei recentemente a leitura do livro "A menina que não queria ser top model", escrito por Lia Zatz e publicado pela editora Biruta. De acordo com a sinopse, que você pode ler abaixo, o livro trata de temas bem interessantes, como padrão de beleza, bulimia e relações conflituosas entre mães e filhas. Segundo a editora, o livro é recomendado para adolescente a partir dos 12 anos e, no site, é possível baixar este guia com sugestões de atividades. Eu estava bem interessada em fazer a leitura deste livro, talvez seja por isso que fiquei tão decepcionada.


SINOPSE: Virgínia e Vitória, mãe e filha, têm uma relação bastante conflituosa, pois Virgínia, desde que a filha era recém-nascida, decidiu que ela seria top model, algo com que Vitória, no entanto, não sonhava. A partir de uma narrativa que oscila entre presente e passado, o leitor conhecerá os dramas vividos por essas duas mulheres, numa relação que, a partir de vários conflitos, fará com que cada uma delas descubra-se como pessoa, independente da outra. Uma história que trata de dores, de sofrimentos, todos eles nascidos no próprio seio familiar. O final, no entanto, é esperançoso para todos. A menina que não queria ser top model, de Lia Zatz, toca em temas bastante contemporâneos, como os relacionamentos entre pais e filhos, a ditadura da estética, bulimia.

Um dos problemas do livro é o fato dele querer tratar de muitos temas. Além dos temas listados na sinopse, o livro também fala sobre machismo (a mãe da personagem teve um pai muito severo e opressor), adultização de crianças, assédio sexual no mundo da moda, conflitos no casamento (o relacionamento entre o pai e a mãe da protagonista não vai nada bem) e diversos outros conflitos da adolescência, como o 1º relacionamento. Tudo isso em 107 páginas - já que das 156 páginas dos livros, 49 contêm apenas ilustrações. É pouco espaço para temas/conflitos demais e, ao querer falar de tudo, o livro não fala de nada. Achei que todos os temas foram tratados de maneira superficial e oferecem pouco material para fundamentar o debate responsável e crítico que cada um desses temas demanda - sobretudo a bulimia.


A construção da narrativa é interessante, ela mescla capítulos narrados em 1ª pessoa pela protagonista Vitória, capítulos narrados em 1ª pessoa pela sua mãe Virgínia e capítulos narrados em 3ª pessoa por um narrador onisciente. Também mescla acontecimentos do presente com acontecimentos do passado dessas duas personagens. Além disso, a adolescente Vitória "se mete" nos outros dois narradores - um recurso que poderia ser legal, mas que ficou um pouco forçado demais. Eu não gostei e não vejo meus alunos gostando.


Pensando na escrita e na superficialidade da narrativa, de fato é um livro para ser lido pelo 6º ano e aí temos um outro problema: o livro tem trechos inapropriados para adolescentes dessa idade. Em certo momento, Virgínia leva a filha a uma agência de modelos bem furada e a secretária faz uma série de perguntas invasivas à mãe. Para mostrar sua indignação, a mãe responde.

— Isso aqui é uma agência de modelos ou uma delegacia? Eu é que tenho perguntas para fazer, eu é que quero saber quanto vocês pagam por foto, quais são as condições de trabalho e muitas outras coisas mais! Só falta agora a senhorita me perguntar quantas vezes eu vou ao banheiro por dia, quantas vezes por semana meu marido e eu transamos, em que posição, se usamos camisinha... (p.130)

A última parte da fala não é adequada para leitores de 12 anos e, principalmente, é totalmente desnecessária no contexto, a mãe poderia dar outros exemplos de absurdos que não envolvessem sexo e causaria o mesmo efeito de indignação Além disso, há um outro momento que eu acho inadequado a leitores dessa idade. No final do livro, Virgínia volta a sua terra natal e encontra um de seus diários. Ela lê um dos relatos, que é a história de vida da avó de uma colega de escola, uma história muito tensa que envolve trabalho escravo e estupro. Uma história que, por si só, daria um livro inteiro e é "jogada" ao leitor nas últimas páginas do livro. Em um livro para leitores de 12 anos?! Não dá. Estou até agora tentando entender a função desse relato no desfecho do livro. Para mim, não tem função.


Eu acho que a literatura tem um potencial incrível de permitir a discussão e a reflexão de temas difíceis, complexos, sensíveis e acho que, como professores, não podemos fugir dessa tarefa. Temas como estes presentes no livro "A menina que não queria ser top model" não devem ser evitados, eles precisam sim estar presentes na sala de aula, mas precisam ser trabalhados com responsabilidade. Para isso, é preciso que a obra literária escolhida traga em si toda a complexidade do tema e o trate de maneira profunda e sensível. Ademais, tanto livro quanto tema precisam ser adequados para a idade dos alunos. Não dá para fazer uma discussão sobre estupro com base em um relato de diário de 3 páginas. No final do livro. Enfim, é uma obra que não preenche os requisitos que eu, professora de Língua Portuguesa, analiso e avalio ao escolher as obras literárias que serão adotados por mim (no meu instagram, já fiz este post sobre o tema).


Por último, um outro incômodo meu foi o excesso de ilustrações no livro. São quase 50 páginas apenas com ilustrações (veja exemplos abaixo) e não acho que elas tenham uma função muito importante para a compreensão do enredo, parecem-me mais decorativas mesmo e isso me irritou um pouco. Precisa de tantas ilustrações só para decorar? Acho que não.


Pela primeira vez desde que criei o blog (isso foi em julho de 2020), termino a resenha dizendo que não gostei do livro e não recomendo sua adoção por outros professores. A obra tem trechos inadequados para leitores de 12 anos e, ao mesmo tempo, é boba e superficial demais para ser lida por estudantes mais velhos. Faltou qualidade literária ao texto e um enredo mais complexo, capaz de discutir os temas com mais profundidade (e sobraram temas também!).

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