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Leitura de literatura na escola [resenha]

Atualizado: 23 de mai. de 2023

Venho compartilhar com vocês a resenha do livro "LEITURA DE LITERATURA NA ESCOLA", organizado por Maria Amélia Dalvi, Neide Luzia de Rezende e Rita Jover-Faleiros e publicado pela Editora Parábola em 2013. O livro é composto por 8 capítulos escritos por diferentes professores-pesquisadores e é sequência do trabalho iniciado na 1ª Jornada de Literatura e Educação, realizada em 2012. A obra pretende ser uma reflexão sobre as perguntas:

  • Qual é o papel da literatura na educação e, particularmente, na escola?

  • O que sabemos, podemos e queremos em relação às práticas escolares atinentes à literatura?

  • Que mudanças são necessárias?

  • É possível (e mais: é desejável) potencializar a literatura na formação de crianças e jovens, pela via educacional?

  • Como pensar as relações entre literatura e escola em tempos como os nossos?

Os artigos apontam alguns problemas e, consequentemente, algumas mudanças necessárias no ensino de leitura de literatura na escola. Uma das questões principais que aparece no livro é a necessidade de se "literaturizar" a escola e a pedagogia ao invés de escolarizar ou pedagogizar a literatura, por causa disso defendem que a literatura deve ter papel central nas aulas de Língua Portuguesa. Outras questões/reflexões importantes levantadas pelos pesquisadores são:

  • A literatura é importante, pois permite a formação tanto de indivíduos mais críticos e autônomos, quanto mais sensíveis e conscientes de si e do outro. Para isso, é necessário que estudantes leiam obras com ganhos ético e estético e que apresentam certo grau de dificuldade capaz de desafiá-los, na medida certa, e estimular a criatividade.

  • O papel crucial do debate sobre a literatura em sala de aula, incentivando nos alunos a autonomia e a autoestima necessárias para se pronunciar sobre o texto, expor suas opiniões e análises sobre determinada obra, disputar sentidos com os colegas e construir seu gosto literário.

  • A importância da diversidade dos livros lidos pelos alunos. Essa diversidade deve ser de gêneros e de temas, mas também deve englobar as diversidades histórica e geográfica. Além disso, é necessário trabalhar com os cânones sem deixar de lado obras contemporâneas e a literatura dita popular.

  • A necessidade de se construir pontes entre o texto literário e a realidade dos alunos. Isso pode ser feito por meio da relação entre obras literárias, da relação de obras literárias com outros produtos culturais e da atualização dos debates presentes no livro. O capítulo 2 trabalha bastante este aspecto, pois o autor propõe o trabalho do cordel em sala de aula sempre em diálogo com outras obras, como poemas e romances.

  • A ressignificação do papel da avaliação na aula de literatura. Para isso, é importante não usar o texto literário como mero pretexto para análises gramaticais, metalinguísticas e de memorização de nomenclatura; mas, ao contrário, devemos colocar essas análises a serviço de uma leitura crítica e reflexiva do livro. As perguntas devem, portanto, exigir um papel ativo e interventivo do leitor e, sempre que possível, fomentar conexões capazes de atualizar e ressignificar a obra literária.

  • A formação literária deve focar tanto na formação do leitor lúdico, que lê pelo prazer, quanto do leitor compulsório, que encara o livro como objeto de análise. Dessa forma, devemos formar um leitor cujo prazer da leitura vem justamente da sua capacidade de analisar o livro, de compreendê-lo em sua profundidade, de encontrar/construir seus sentidos.

Essas são apenas algumas das reflexões que o livro apresenta, seria impossível listar todas aqui. Gostei muito da leitura, por um lado ela confirmou algumas das ideias que eu já tinha construído intuitivamente, a partir da minha prática em sala de aula; por outro lado me apresentou alguns conceitos e reflexões novos.


Ontem eu assisti a Aula 1 do minicurso sobre este livro, disponibilizada no canal da Editora Parábola no Youtube (o vídeo da primeira aula está logo abaixo). Nele, a professora Neide Luzia de Rezende, uma das organizadoras do livro, explicou o processo que antecedeu a escrita dos capítulos. Além disso, falou que o livro tem sido presença constante na bibliografia dos cursos de Letras, o que acho muito importante, pois eu não tive a oportunidade de discutir essas questões durante minha graduação (entre 2003 e 2006).


Embora eu tenho gostado muito do livro e recomende sua leitura com toda certeza, tem três pontos que não me agradaram tanto - ou talvez eu fiz a leitura com expectativas demais. O primeiro ponto é que o livro é um pouco repetitivo e acho que isso, provavelmente, tem a ver com o fato de os capítulos terem sido escritos por autores diferentes e alguns não foram necessariamente escritos para este livro.


O segundo ponto é que não me parece que os professores têm poder suficiente para resolver alguns problemas apontados, como o ensino de histografia literária no Ensino Médio. Se os currículos são construídos com base nesta histografia, se a mesma está presente nos livros didáticos e é cobrada pelos vestibulares (e por muitos escolas), não é tão simples para o professor mudar esse paradigma. A resolução de muitos problemas relacionados ao ensino de literatura, infelizmente, está fora de nossa alçada.


O terceiro e último ponto é que o livro poderia ter um lado mais voltado para a prática em sala de aula mesmo. Os autores apontam problemas importantes e mudanças necessárias, mas como colocar essas mudanças em prática fica a cargo do professor - e o problema é que, justamente, não sabemos como fazer isso. Por exemplo, ao falar das avaliações de leitura literária, poderia haver algum exemplo do tipo de pergunta/avaliação que pode/deve ser feita. O que exatamente significa uma avaliação que exige uma ação interventiva do leitor? Será que todos professores que lerem o livro conseguirão entender o que isso significa e colocar essa ideia em prática?


Acho que eu esperava um livro parecido com o "Gramática contextualizada" (tem resenha dele aqui), em que a autora Irandé Antunes aponta problemas no ensino de gramática na escola, mas também traz exemplos de como trabalhar gramática de maneira contextualizada. Não à toa, o capítulo 2 é o meu preferido: nele, o pesquisador José Helder Pinheiro Alves apresenta algumas ideias e exemplos de como trabalhar o cordel em diálogo com obras literárias canônicas. Eu esperava que o livro todo fosse seguir mais ou menos essa proposta.

Na Aula 1 do minicurso, a professora Neide Luzia de Rezende diz que a intenção das organizadas nunca foi apresentar "uma receita de bolo". E eu entendo a proposta do livro (que com certeza tem sido importantíssimo nos cursos de licenciatura) e sei que talvez tenha sentido falta dessa proposta mais didática por causa da expectativa que criei como leitora. No entanto, como professora formada há quase 15 anos, sinto falta de um livro que apresente exemplos mais concretos de como trabalhar a leitura literária em sala de aula. Se nossa formação é defasada, se os livros didáticos são problemáticos, se a tradição escolar é maçante; não é tão fácil para professores e professoras construírem sozinhos - e longe das universidades - essas mudanças. A gente tenta, claro; mas fica sempre a dúvida se estamos no caminho certo e se o que ensinamos na aula de literatura é, de fato, ensino de literatura.



1 comentário

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1 Comment


Joseane Ribeiro
Joseane Ribeiro
Jul 25, 2021

Exatamente, Aline. Como distinguir o que poderemos trabalhar, uma vez que temos lacunas claras em nossa formação também? Fica a dica para uma próxima edição! Obrigada por compartilhar conosco essa resenha.

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