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Gramática contextualizada [resenha]

Atualizado: 5 de abr. de 2021


Acho que não é nenhuma novidade dizer para os professores de língua portuguesa que eles precisam ensinar gramática contextualizada na escola. O tema não é novo, aparece constantemente em qualquer discussão sobre ensino de língua portuguesa e também nos livros didáticos. O problema é colocar isso em prática. Já fazia um bom tempo que eu procurava um livro sobre o assunto e o encontro com esta obra foi muito feliz. Eu devorei o livro em apenas 2 dias.


gramatica contextualizada irande antunes

Gramática contextualizada - limpando "o pó das ideias simples" foi escrito pela Profa Dra. Irandé Antunes, uma pesquisadora que há anos trabalha com formação do professor, mas que eu não conhecia. Há outros livros dela lançados pela Editora Parábola e também há algumas vídeo-aulas no perfil da editora no Youtube.


A autora começa o livro retomando alguns estudos linguísticos para deixar claro que toda ação de linguagem é dialógica e, portanto, falar de gramática contextualizada é uma redundância, porque a gramática é sempre contextualizada. Tudo que dizemos acontece sempre em um contexto, na interação com o outro e na intenção de produzir sentido. Quem tirou a gramática do seu contexto foi a escola, ao limitar o ensino de gramática à identificação e classificação de palavras em frases soltas e dissociadas do seu contexto de produção.


O que seria, então, contextualizar a gramática em sala de aula?


Segundo ela, contextualizar a gramática

"é apenas uma estratégia metodológica de análise das funções que cada uma de suas categorias cumpre na construção dos sentidos do texto. É, portanto, parte de uma perspectiva que pretenda surpreender os usos reais que são feitos da língua e, por essa razão, pretenda fazer do texto objetivo de ensino-aprendizagem". (p.110)

Desta definição, origina-se uma das críticas feitas por Antunes: a improdutividade da aula de gramática baseada em frases isoladas. Acredito que todo professor de português faz, ou já fez, exercícios baseados em frases que inventou ou que tirou da internet. Até mesmo os livros didáticos, inclusive os mais progressistas, trazem exercícios com base na análise de frases. Para a autora, essa prática tem dois problemas: 1) no mundo real ninguém se comunica por frases soltas e isoladas, e 2) em atividades com frase nunca há contexto. Nessa perspectiva, pedir para o aluno classificar o sujeito indeterminado de uma frase não faz sentido, porque a escolha desse tipo de sujeito só pode ser interpretada e analisada no contexto.


Esta citação também aponta para outra crítica feita por ela: o uso do texto apenas como pretexto, de onde frases e palavras são extraídas com o objetivo de identificação e classificação, sem qualquer reflexão sobre sua função e sentido no texto. Mesmo que um texto esteja sendo usado para análise de aspectos gramaticais, não podemos perder de vista o todo do texto e nunca podemos abrir mão de analisar a importância das categorias gramaticais estudadas para a construção de sentido. O objetivo final das aulas de português é ensinar o aluno a ler e escrever bem e saber classificar e listar todos pronomes, apenas por pura sistematização, não contribuirá para que esse objetivo seja alcançado.


Além disso, a autora ressalta que o ensino de gramática contextualizada

"requer, também e sobretudo, que as descrições que dela são feitas encontrem apoio nos usos reais, orais e escritos, do português contemporâneo, ou seja, nos textos que ouvimos e que podemos ler na imprensa, nos documentos oficiais, nos livros e nas revistas de divulgação científica etc. Implica, pois, ter como respaldo o que, de fato, pode ser comprovado nos textos que circulam aqui e ali por esse Brasil afora". (p. 111)

Sobre esse aspecto, a autora diz que escondemos dos alunos a realidade do estado atual da língua portuguesa e continuamos a ditar regras que já estão fora das opções de uso dos falantes, mesmo dos mais cultos e nos contextos formais. Ela diz não fazer sentido, por exemplo, continuar exigindo (e cobrando em provas) alguns casos de regência verbal, como dos verbos assistir, obedecer e preferir.


No livro, ela analisa vários exemplos de atividades baseadas em textos que, no entanto, não são análises de uma gramática contextualizada - e acredito que todo mundo vai reconhecer algumas de suas aulas nessas análises. Nos dois últimos capítulos, ela discute o que seria o ensino contextualizado de conjunções e pronomes e apresenta alguns exemplos de atividades.


Irandé Antunes, neste livro, fala muita coisa que já sabemos, mas às vezes é bom que alguém esfregue na nossa cara algumas verdades para que a gente assuma o desafio de fazer mudanças necessárias - e que já deveriam ter acontecido.


Recomendo demais a leitura!


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