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Ensinar a ler, aprender a avaliar [resenha]

Atualizado: 23 de mai. de 2023

Depois de muito tempo, finalmente estou de volta com a resenha de um livro teórico, desta vez do livro "ENSINAR A LER, APRENDER A AVALIAR: avaliação de diagnóstico das habilidades de leitura", do professor e pesquisador Robson Santos de Carvalho, publicado pela Editora Parábola. O livro é fruto tanto de um processo de pesquisa de Carvalho quanto do seu trabalho com a formação de professores em Minas Gerais.

O autor começa o livro questionando um pouco nossa concepção de avaliação. Desde pequenos aprendemos que avaliação é aquilo que acontece depois que a gente aprende (ou ensina) e que avaliar não é ensinar, mas é uma coisa a parte. Além disso, ainda existem professores que usam a avaliação para punir os alunos ("quem mandou o aluno não estudar?"), para "colocar o aluno no seu lugar". Carvalho chama atenção para urgência de se rever o papel da avaliação na sala de aula - ela deve ser vista como parte dos processos de aprendizagem e como etapa essencial para que o professor possa orientar, constamentente, suas práticas em sala de aula. Então, ele passa para a definição e diferenciação de alguns conceitos.

 

COMPETÊNCIA x DESEMPENHO

Segundo o autor, competência é pôr em relação conhecimentos para o desempenho de uma função por meio de operações mentais. No caso da competência leitora (um dos objetidos da disciplina de Língua Portuguesa), é preciso saber e ser capaz de realizar operações mentais como identificar informações explíticas, produzir inferências, estabelecer relações entre partes de um mesmo texto ou entre textos diferentes, etc - um leitor competente, então, é aquele que domina essas operações, ou seja, as habilidades de leitura.

"Portanto, ser um leitor competente é mobilizar conjuntos de habilidades para produzir sentidos dos textos que se lhe apresentam. quanto maior (ou mais dinâmica) for a competência leitora, mais experiente será o leitor (e vice-versa)."(p.30)

Já o desempenho é aquilo a que conseguimos ter acesso em uma avaliação: por meio do desempenho dos alunos, devemos ser capazes de identificar o estágio de construção da competência leitora. Por isso, mais importante do que a nota final da prova, é saber identificar em quais habilidades os alunos tiveram melhor ou pior desempenho

 

CONTEÚDO x CONHECIMENTO x HABILIDADES

O conteúdo corresponde às informações presentes nos materiais didáticos - é a matéria dada. Mas, esse conteúdo ainda não é conhecimento.

Conhecimento é o resultado da reflexão dos alunos frente aos conteúdos escolares, é construído quando o aluno estabelece relações entre conteúdos e entre o conteúdo e sua própria experiência.

As habilidades também não são sinônimos de conteúdo, elas são as operações mentais adquiridas, desenvolvidas e consolidadas por meio da apropriação dos conteúdos pelos alunos, com a intervenção ativa e sistemática dos professores.

 

EXAME x AVALIAÇÃO

Essa é uma distinção importante. Exame tem por objetivo a seleção de estudantes, não se vincula ao ato pedagógico e se importa mais com a nota final, já que ela será necessária para rankear os alunos.

Já a avaliação faz parte do processo de ensino e tem caráter pedagógico, a nota não é o mais importante, mas sim a identificação do estágio de aprendizagem dos alunos.

 

Após o esclarecimento desses conceitos, Carvalho aponta alguns problemas nas práticas avaliadoras que observou, dentre eles eu destaco:

  1. Aulas baseadas em conteúdos conceituais e avaliações que cobram a memorização desses conteúdos, sem qualquer relação com habilidades de leitura e com a importância desses conteúdos para a compreensão de um texto;

  2. Atribuição do fracasso escolar apenas ao aluno, que não estudou; sem qualquer processo de autoavaliação docente, em que o professor reflita sobre suas práticas para ver se ele realmente ensinou o que o aluno deveria aprender;

  3. Desconhecimento das habilidades de leitura que devem ser trabalhadas e avaliadas em sala de aula, principalmente por causa da lacuna na formação docente sobre o tema; e

  4. Foco apenas no resultado e redução da avaliação a uma nota, sem se atentar ao processo de desenvolvimento dessas habilidades.


O ato de avaliar é um ato de investigar.


Nos capítulos finais, o autor apresenta a matriz de referência de habilidades e leitura. No livro, ele explica cada uma das habilidades e o seu grau de complexidade. Eu fui atrás da matriz do SAEB/Prova Brasil e vou disponibilizar para vocês uma tabela com as habilidades de leitura da prova SAEB do 9º ano. Se você der uma googlada, vai achar facilmente o documento completo com as habilidades das outras séries.


Matriz de Referência SAEB 9o ano
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Um problema identificado por Carvalho é que tanto livros didáticos quando as avaliações elaboradas pelos professores que ele acompanhou limitam-se a atividades de cópia de informações que provem que o aluno leu o texto, ou seja, são perguntas que focam na habilidade de localizar informações explícitas, pouco se trabalha com habilidades mais complexas. Segundo ele, as habilidades mais complexas da matriz do SAEB são as D1, D3, D10, D14 e D18, ou seja, são essas que precisam ser mais trabalhadas nas fases finais do Ensino Fundamental.


Uma das consequências negativas dessa limitação é que o aluno fica condicionado a pensar que as respostas a perguntas de interpretação de texto devem ser encontradas escritas no textos - quantas vezes os alunos já te disseram que não respondeu a uma pergunta porque não acharam a resposta no texto? E não não dava pra achar mesmo! Na maioria das vezes, a resposta não vai estar no texto, porque ela precisa ser construída pelo aluno no processo de leitura e de atribuição de sentido ao texto - o que vai exigir operações mentais que precisam ser ensinadas nas aulas de Língua Portuguesa.


Mas, claro, a principal consequência negativa é que os alunos saem das escolas sem conseguir ler e interpretar um texto de verdade, ficando apenas naquilo que é mais superficial do texto.


Carvalho também analisa mais detalhadamente avaliações elaboradas pelos professores dos cursos que ministrou e identifica alguns problemas na elaboração das perguntas (no caso, de múltipla escolha), como:

  • Ausência de paralelismo: uma resposta torna-se mais atrativa por ter tamanho, estrutura ou palavras muito diferentes dos outros itens;

  • Há mais de uma resposta possivelmente correta;

  • A pergunta não faz referência explícita ao contexto em que a palavra se insere: é uma pergunta sobre vocabulário que tira a palavra do contexto de uso;

  • Uso de palavras excludentes (como "somente") que também tornam a alternativa mais atrativa;

  • Uma alternativa distratora (uma das respostas incorretas) automaticamente exclui outra alternativa;

  • As alternativas distratoras não são plausíveis naquele contexto.

O único ponto negativo que vejo no livro é que eu esperava mais análises de perguntas bem elaboradas, isso seria importante para nós, professores, termos como parâmetro na hora de elaborar perguntas para cada uma das habilidades da matriz.


Recomendo muito a leitura deste livro, ele ajuda bastante a sistematizar o trabalho de leitura em sala de aula e facilita demais a elaboração de perguntas de atividades e avaliações.


ATUALIZAÇÃO: A partir da leitura desse livro, elaborei uma avaliação diagnóstica de leitura para o 8º ano.

Neste post, vocês encontram um relato sobre a elaboração e sobre a aplicação dessa avaliação.

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