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Como elaborar uma proposta de redação?

Atualizado: 18 de abr.

Acredito que boa parte do sucesso dos alunos na aula de produção de texto depende da qualidade das propostas de redação que serão elaboras pelos professores, por isso decidi compartilhar com vocês como eu elaboro essas propostas.


Já desde a época dos Parâmetros Curriculares Nacionais (os PCNs), publicado em 1997, o gênero textual é colocado como ponto central das aulas de Língua Portuguesa. Essa visão foi reforçada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) publicada recentemente, que prioriza o trabalho com gêneros textuais em sala de aula e inclui os gêneros característicos do meio digital. Essa virada pedagógica no ensino de língua portuguesa deve-se principalmente aos trabalhos publicados pelos suíços Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz e pelo brasileiro Luiz Antônio Marcuschi, professores e pesquisadores que retomo neste texto.


Em seu livro "Gêneros orais e escritos na escola", Schneuwly e Dolz afirmam que saber falar (e escrever), não importa em que língua, é dominar os gêneros que nelas emergiram historicamente. Portanto, o papel do professor na aula de português é enfocar "o texto em seu funcionamento e em seu contexto de produção/leitura, evidenciando as significações geradas" (p. 10).


Gêneros textuais são formas relativamente estáveis tomadas pelos enunciados em situações habituais. (p. 63)

Ou seja, gêneros textuais são os textos que produzimos em situações de comunicação - em situações semelhantes escrevemos textos semelhantes, conhecidos e reconhecidos por todos e que, por isso mesmo, facilitam a comunicação: a conversa em família, a negociação no mercado, o discurso amoroso etc. O papel da escola seria, então, desenvolver nos alunos as capacidades necessárias para dominar esses gêneros e também para selecionar o gênero mais adequado ao seu propósito de comunicação em um contexto determinado.


Veja que os gêneros textuais não se materializam no "vazio", mas estão fundados nas nossas práticas sociais. Sobre isso, em seu livro "Produção textual, análise de gêneros e compreensão", Marcuschi afirma:


Não existe um uso significativo da língua fora das inter-relações pessoais e sociais situadas. (...) Isto quer dizer que todo uso autêntico da língua é feito em textos produzidos por sujeitos históricos e sociais de carne e osso, que mantêm algum tipo de relação entre si e visam a algum objetivo comum. (p. 23)

Diante dessas reflexões, ao trabalhar gêneros textuais em sala de aula, o professor precisa primeiro ler e analisar exemplos de um determinado gênero e, depois, desenvolver nos alunos as habilidades necessárias para produzir esse mesmo gênero. Em ambas atividades, é preciso abordar:

  1. Os conteúdos específicos de cada gênero e que se tornam dizíveis por meio dele - o conteúdo de uma receita não é o mesmo de uma notícia.

  2. As estruturas comunicativas, isso é, em que contexto aquele gênero circula em nossa sociedade e a quais propósitos ele atende - se eu quiser transmitir um ensinamento por meio de uma narrativa, escrevei uma fábula; mas se eu quiser expor minha opinião sobre determinado assunto, não poderei produzir o mesmo gênero, terei que escolher outro que seja mais adequado, como um artigo de opinião.

  3. As configurações específicas das unidades linguísticas - marcas de interlocução, formalidade da linguagem, uso dos tempos verbais, elementos coesivos, marcas linguísticas da argumentação, uso de adjuntos adverbiais para marcação de tempo e espaço...


A proposta de redação elaborada pelo professor precisa indicar todos esses elementos, deixando claro o que exatamente espera-se que o aluno escreva. Dentro do ambiente escolar, é preciso lembrar que a produção de um gênero textual pode atender a propósitos reais (como escrever uma carta-denúncia para a prefeitura reclamando de um problema real da cidade), mas também pode atender a propósitos ficcionais elaborados pelo professor. O importante é que toda proposta apresente um contexto de produção e um propósito.


A partir do Vestibular de 2011, a Unicamp começou um novo modelo de prova de redação baseado nos gêneros textuais e irei analisar uma dessas provas para exemplificar como deve ser construída e escrita a proposta de redação. Vejamos abaixo a proposta TEXTO 1 do Vestibular Unicamp de 2018.



Vamos tentar identificar os elementos que listei acima?

  1. Os conteúdos específicos de cada gênero: o texto produzido pelo candidato deverá abordar o tema pós-verdade com base nos textos fornecidos pela proposta. Esse é um ponto importante: o ideal é que sua proposta de redação contenha alguns textos ou vídeos que apresentem o conteúdo ao aluno e que devam ser usados por ele para a escrita do texto.

  2. As estruturas comunicativas, isso é, em contexto aquele gênero circula: a proposta deixa claro que o candidato deve se colocar no lugar de um aluno do Ensino Médio que irá dar uma palestra a convite do Grêmio. Disso, entende-se que ele vai apresentar um tema aos ouvintes, deverá produzir um texto informativo. O contexto de produção também indica que trata-se de uma situação formal, por isso o texto deve ter estrutura e linguagem adequados a essa situação.

  3. As configurações específicas das unidades linguísticas: o texto será lido em voz alta, por isso ele precisa ter marcas de interlocução com os ouvintes. Por causa do contexto de produção, também espera-se que a linguagem seja formal. Por se tratar de um exame de seleção, não há muitas informações sobre a linguagem, porque espera-se que o alunos já dominem essas unidades linguística.


Agora vou compartilhar com vocês uma das propostas de produção de texto que uso nas aulas de português do 8º ano. Essa é uma produção de textos que faço para avaliar a leitura do livro "Cinderela Chinesa".

 

Imagine que você é uma das pessoas que trabalha na casa da família Yen e decidiu escrever uma carta para denunciar os pais de Adeline ao Conselho Tutelar, órgão municipal responsável por zelar pelo direitos da criança e do adolescente. Nesta carta-denúncia, você deve:

  • Relatar dois acontecimentos do livro que provam que Adeline é vítima de violência contra a criança;

  • Indicar quais artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA - veja abaixo) não estão sendo cumpridos pelo pai e pela madrasta. Essa parte é importante para justificar sua denúncia;

  • Seguir a estrutura do gênero carta.

 

Veja que, na proposta, eu indico que o aluno deve se colocar no lugar de um dos empregados da casa e escrever uma carta-denúncia ao Conselho Tutelar para denunciar os maus-tratos sofridos pela protagonista. Eu poderia parar a proposta por aí, mas isso seria um problema, pois o aluno não saberia exatamente qual seria o conteúdo esperado dessa carta. É importante indicar de forma clara e objetiva qual é o conteúdo que você, professor, espera encontrar no texto. Neste caso, eu espero que o aluno me indique dois acontecimentos do livro que provam que a criança é vítima de violência e ele deve relacionar esses acontecimentos aos artigos do ECA (na sequência da proposta, estão listados os artigos 1 ao 5), provando que eles não estão sendo cumpridos pela família.


Como o gênero textual carta já foi trabalho em séries iniciais, desde o Ensino Fundamental 1, não há muitas informações sobre as configurações linguísticas, mas eu retomo com os alunos, durante a leitura da proposta, os elementos que compõem a estrutura de uma carta.


Ao retomar um gênero textual que os alunos já estudaram e produziram anteriormente (algo recomendado pelos pesquisadores que citei neste post), eu recupero e reforço essas habilidades já desenvolvidas, ao mesmo tempo em que avalio de forma significativa a leitura do livro, pois a retomada de partes do enredo será essencial para o cumprimento da proposta.


Este texto aqui já ficou bem grande, por isso paro por aqui, mas, em breve, eu volto para falar sobre a avaliação da produção de texto e como elaborar rubricas que facilitem que o processo de correção e o fornecimento de devolutivas construtivas aos alunos.


Comenta aqui embaixo se você tem alguma dúvida sobre a elaboração de proposta de produção de texto e de rubricas.


 

GÊNEROS ORAIS E ESCRITOS NA ESCOLA

Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz

Lançado em 2004, 240p.

Editora Mercado de Letras


Mais voltado para o professor e para o trabalho em sala de aula, tem a descrição de sequências didáticas sobre alguns gêneros específicos, como debate regrado e narrativa de enigma. Se tiver que escolher apenas um dos dois livros para ler, indico este.



PRODUÇÃO TEXTUAL, ANÁLISE DE GÊNEROS E COMPREENSÃO

Luiz Antônio Marcuschi


Mais teórico, voltado para a formação do estudante de Letras e futuro professor. Na parte de produção de texto, retoma muitas reflexões do livro de Schneuwly e Dolz.



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