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Nunca vi a chuva [resenha]

Hoje é dia de parceria aqui no blog. Para quem não sabe, somos Educadoras Parceiras da Record Educação, o departamento de educação da editora Record. Durante a parceria, todos os meses, vamos receber dois livros da editora para ler e recomendar para vocês, juntamente com algumas sugestões de trabalho e atividade. Em julho, recebemos os livros "Querido mundo - a história de guerra de uma menina síria e sua busca pela paz", de Bana Alabed (vai ter resenha dele em breve), e "Nunca vi a chuva", do escritor Stefano Volp. Neste post, compartilho com vocês uma breve resenha do segundo livro.

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O enredo desse livro me chamou bastante a atenção. Narra a história de Lucas, um jovem brasileiro e negro de quase 20 anos que foi adotado por um casal de classe alta, vive em Portugal e tem uma vida bem confortável. No entanto, ele se sente abandonado pelos pais adotivos - que nunca se importaram muito com ele -, está em depressão e já tentou se matar 5 vezes. Sua vida parece não ter sentido, até o dia em que ele descobre um vídeo de Rafael no youtube, no qual esse outro jovem toca violão e canta.


E Rafael e Lucas são idênticos!

Eles são irmãos gêmeos!


Movido pela curiosidade de entender melhor o seu passado e pelo desejo de conhecer o irmão, Lucas pega um avião para o Rio de Janeiro, onde Rafael mora - mas beeem no interior do estado. Lá, com a família de Rafael, ele voltar a ser feliz, descobre a importância do amor familiar e sorri de novo - depois de muito tempo.


A história parece bem legal - e é mesmo - , mas tem alguns pontos que fazem com que eu não recomende sua leitura em sala de aula.


Primeiro, o tema do suicídio está bem presente na obra e eu acho um tema bem complexo e difícil de ser trabalhado. Eu, particularmente, não me sinto preparada para discutir este tema em sala de aula, então não leria um livro que traz essa questão repetidas vezes ao longo de suas páginas.


Outra questão é a linguagem do livro. "Nunca vi a chuva" é escrito em forma de diário e, por isso, tem uma linguagem bem informal e com muitos palavrões. A princípio, o vocabulário informal não é um motivo para não ler um livro na escola, inclusive já li em sala de aula livros com linguagem semelhante, como "Capitães da areia" e "O apanhador no campo de centeio", mas esses dois livros são clássicos da literatura e sua qualidade literária e de escrita justificam a leitura - algo que não acontece com a obra tema desta resenha. Ele não é um clássico, não tem uma qualidade literária alta, então fica complicado justificar sua leitura como parte do conteúdo escolar.


Por último, eu achei a história um pouco capacitista. Explico. Rafael, irmão gêmeo de Lucas, perdeu a visão ao longo da infância e está quase totalmente cego. Existe uma chance de cura por meio de uma cirurgia que ele ainda não conseguiu fazer pelo SUS. Depois de conhecer Rafael pessoalmente, Lucas fica o tempo todo com pena do irmão, das dificuldades que ele enfrenta, da sua vida difícil. Lucas repete diversas vezes que está envergonhado por ter reclamado tanto da vida enquanto o irmão, que é cego, vive bem e é uma pessoa que está sempre otimista e animada. Ao ler a história, fica claro que, para Lucas, ter uma deficiência é a pior coisa que pode acontecer com alguém. Aí está o capacitismo!


Eu fiquei muito incomodada ao ler essas partes da história, mas não sou especialista no assunto, por isso conversei com a Carol Rezende, que é pedagoga, professora e mãe de uma criança com deficiência (veja o perfil dela no Instagram neste link). Ela confirmou meu desconforto.


Sempre que partimos da ideia de que temos que ser gratos por não termos deficiência, porque viver com uma seria a pior coisa do mundo, estamos dando um lugar muito negativo e estigmatizado para as deficiências e para as pessoas que possuem algum tipo de deficiência. Ou seja, estamos sendo capacitistas.


Também é capacitismo quando olhamos para essas pessoas com o olhar de "ela é muito inspiradora, porque passa por tudo isso e ainda é feliz" - o que é chamado de inspiração tóxica, porque pessoas com deficiência são apenas pessoas querendo viver suas vidas, elas não têm a obrigação de serem fonte de inspiração para ninguém.


Além disso, Lucas aparece na vida de Rafael como a pessoa com dinheiro que pode pagar pela cirurgia do irmão e, assim, transformar a sua vida. Ele age como se fosse o salvador - e isso me incomodou muito!


Diante de tudo isso, não é um livro que eu adotaria para ler com meus alunos. No entanto, ressalto que é uma leitura legal sim - talvez para compor a biblioteca da escola.

 

Na seção PARA LER NA ESCOLA, você vai sempre encontrar resenhas de livros literários (também conhecidos como paradidáticos) que são adequados para ler com os alunos do Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio . Também haverá sugestões de atividades, exercícios e temas que podem ser trabalhados com os alunos durante a leitura.

 

Nunca vi a chuva

Stefano Volp

Lançado em 2023, 224 p.

Editora Galera

Se todos acham que você tem a vida perfeita, como seria justamente você a discordar? De Stefano Volp, uma das vozes mais potentes e brilhantes da nova geração de autores nacionais, Nunca vi a chuva convida o leitor a entrar no diário e na mente de Lucas, um jovem em busca do próprio caminho em um mundo ao qual parece não pertencer, não importa o quanto tente.

Em teoria, Lucas parece ter a vida perfeita. Adotado por uma família rica, ele mora em Portugal, tem amigos e uma namorada que ama. Mas se não há nada do que reclamar, então de onde vem esse vazio que não consegue evitar sentir? Quando as brigas com os pais e uma desilusão amorosa o levam a um limite do qual já se aproximava a passos largos, o jovem decide que não há mais motivo para viver.

Prestes a tomar uma decisão da qual não há retorno, uma mensagem em seu celular o faz repensar tudo: um vídeo de alguém idêntico a ele, exceto pelo fato de ter uma deficiência visual. Incrédulo com essa reviravolta, Lucas resolve abandonar a vida em Portugal e partir rumo ao interior do Rio de Janeiro atrás de respostas sobre quem é o seu gêmeo e o que isso pode revelar sobre seu passado.

Escrito em forma de diário a partir do olhar e da narrativa inconfundíveis de Stefano Volp, um dos grandes novos nomes da literatura brasileira, Nunca vi a chuva é um relato intimista e profundo de um jovem descobrindo seu caminho e seu lugar no mundo.

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