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Casa de Alvenaria - Volume 1 [resenha e sugestões de atividades]

Atualizado: 23 de mai. de 2023

Hoje é dia de parceria aqui no blog. Para quem não sabe, sou uma Educadora Parceira da Companhia da Educação, o departamento de educação da editora Companhia das Letras. A cada dois meses, vou receber um livro da editora para resenhar para vocês e o livro da vez é "Casa de Alvenaria - Volume 1: Osasco", de Carolina Maria de Jesus.

Esta é uma versão atualizada e ampliada do segundo diário escrito e publicado pela Carolina de Jesus e conta com uma introdução excelente escrita pela Conceição Evaristo. Neste diário (que também tem o volume 2), conhecemos os relatos da vida dessa autora após a publicação de "Quarto de despejo", seu primeiro diário que foi um sucesso de vendas e praticamente fez dela uma estrela na década de 1960.


"Casa de Alvenaria" abarca a vida de Carolina de Jesus de agosto a dezembro de 1960, começando a narrativa com a sua mudança da favela de Canindé. Ela fala sobre sua rotina que, agora, inclui encontros com políticos, viagens, entrevistas e noites de autógrafos. Muita coisa mudou em sua vida, mas muita coisa parece não ter mudado tanto assim.


Chamou minha atenção o fato de sua nova casa ainda ser pequena e marcada pela pobreza. Nela, há energia e água quente, mas causa um estranhamento ver que aquela que é sucesso de vendas de livros mora em uma casa minúscula. Carolina de Jesus recebeu o reconhecimento financeiro que deveria? Ela foi, de alguma forma, enganada ou explorada pelos seus editores? Foram questões que ficaram na minha cabeça durante a leitura


Abaixo seguem sugestões de atividades que podem ser realizadas durante a leitura do livro. Acredito que ele seja mais adequado para o Ensino Médio, embora também possa ser lido por alunos do 9º ano dependendo do contexto em que você trabalha, por isso as habilidades da BNCC listadas são do Ensino Médio. Para o 8º, talvez a leitura possa ser maçante demais. Confesso que eu mesma me canso um pouco durante a leitura dos diários da Carolina de Jesus, pois os relatos acabam se repetindo e minha atenção se perde - sendo resgatada, em alguns momentos, por reflexões interessantes ou frases belíssima e minuciosamente escritas. Por isso, acredito que essa possa ser uma dificuldade de se ler diários na escola: parece que, após certo ponto, eles se tornam repetitivos e os alunos se cansam da leitura. Então, acho que vale a pena avaliar se é necessário/importante/crucial ler o livro todo ou apenas algumas entradas/datas.


ATIVIDADES QUE PODEM SER FEITAS EM SALA DE AULA


1. O que nos diz o título do livro?

Analisar o título pode ser um ponto de partida muito produtivo. Neste caso, acho essencial analisar e comparar os títulos deste diário e do anterior. O que eles nos dizem sobre a vida - e as mudanças de vida - de Carolina Maria de Jesus.

(EM13LP02) Estabelecer relações entre as partes do texto, tanto na produção como na leitura/escuta, considerando a construção composicional e o estilo do gênero.

2. O gênero diário

Durante a leitura desse livro, seria interessante estudar com os alunos as características do gênero diário e, talvez, ler trechos de outros diários, como "O diário de Anne Frank".

Além disso, acho essencial também ler alguns trechos de "Quarto de Despejo" para que os alunos conheçam melhor a história da autora - e também para fazer a atividade proposta no próximo item.

Outra atividade interessante seria pedir para os alunos imaginarem que eles escreveram um diário e ele será publicado. Qual seria o título dessa publicação? Peça que escrevam um texto justificando a escolha.

(EM13LGG602) Fruir e apreciar esteticamente diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, assim como delas participar, de modo a aguçar continuamente a sensibilidade, a imaginação e a criatividade.

3. A história de Carolina

Neste diário, há muitas questões relacionadas à vida da autora que podem - e devem - ser analisadas e debatidas na escola: desigualdade social, pobreza, falta de acesso à educação, racismo, violência nas relações pessoais, preconceito linguístico... Escolha os temas que julgar mais interessantes para discutir com seus alunos.

Outra atividade que pode ser feita é uma leitura comparativa de "Quarto de despejo" e este segundo diário para analisar o que mudou ou não vida de Carolina de Jesus. A publicação e o sucesso do primeiro diário gerou transformações em sua vida? Quais?

(EM13LGG302) Posicionar-se criticamente diante de diversas visões de mundo presentes nos discursos em diferentes linguagens, levando em conta seus contextos de produção e de circulação.
(EM13LGG303) Debater questões polêmicas de relevância social, analisando diferentes argumentos e opiniões, para formular, negociar e sustentar posições, frente à análise de perspectivas distintas.
(EM13LP01) Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/ escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.) de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.
(EM13LP46) Compartilhar sentidos construídos na leitura/escuta de textos literários, percebendo diferenças e eventuais tensões entre as formas pessoais e as coletivas de apreensão desses textos, para exercitar o diálogo cultural e aguçar a perspectiva crítica.

4. Linguagem e preconceito

É impossível ler os diários de Carolina de Jesus e não discutir questões de linguagem. Toda vez que um novo diário ou texto seu é publicado, o debate sobre o tema reacende: os desvios da norma culta presentes nesses textos deveriam ser corrigidos?

Para discutir essa questão, você pode propor que os alunos escrevam um texto argumentativo para responder a essa pergunta. Há alguns textos que podem ser lidos em sala de aula para fundamentar essa discussão/atividade, como o texto abaixo. Os alunos concordam com ele?


(EM13LP10) Analisar o fenômeno da variação linguística, em seus diferentes níveis (variações fonético-fonológica, lexical, sintática, semântica e estilístico-pragmática) e em suas diferentes dimensões (regional, histórica, social, situacional, ocupacional, etária etc.), de forma a ampliar a compreensão sobre a natureza viva e dinâmica da língua e sobre o fenômeno da constituição de variedades linguísticas de prestígio e estigmatizadas, e a fundamentar o respeito às variedades linguísticas e o combate a preconceitos linguísticos.

5. O que é literatura?

Além da questão da linguagem, há em torno das obras de Carolina de Jesus outra grande polêmica: ela seria mesmo literatura?

Em 2017, essa polêmica se materializou durante a entrega de uma homenagem à autora, realizada pela Academia Carioca de Letras, quando um professor presente se manifestou e disse que a obra de Carolina "não é literatura".

Que tal propor que seus alunos escrevam um artigo de opinião (ou uma resenha crítica) para responder a essas perguntas? Para fundamentar o debate, recomendo os textos abaixo - mas há MUITOS outros disponíveis online.



(EM13LGG203) Analisar os diálogos e os processos de disputa por legitimidade nas práticas de linguagem e em suas produções (artísticas, corporais e verbais).
(EM13LP52) Analisar obras significativas das literaturas brasileiras e de outros países e povos, em especial a portuguesa, a indígena, a africana e a latino-americana, com base em ferramentas da crítica literária (estrutura da composição, estilo, aspectos discursivos) ou outros critérios relacionados a diferentes matrizes culturais, considerando o contexto de produção (visões de mundo, diálogos com outros textos, inserções em movimentos estéticos e culturais etc.) e o modo como dialogam com o presente.
(EM13LP53) Produzir apresentações e comentários apreciativos e críticos sobre livros, (...) (resenhas, vlogs e podcasts literários e artísticos, playlists comentadas, fanzines, e-zines etc.).

6. As muitas Carolinas do Brasil de 2021.

Eu acho sempre muito importante realizar atividades que levem os alunos a estabelecer conexões entre as obras lidas e a nossa realidade - seja a realidade de vida do aluno ou a realidade brasileira.

No caso dessa obra, infelizmente, os relatos de Carolina Maria de Jesus não poderiam ser mais atuais, sobretudo no Brasil de 2021. Como não lembrar de seu livro ao ler notícias como essa: Moradores procuram comida em caminhão de lixo em bairro nobre de Fortaleza?


Proponha que seus alunos pesquisem notícias que se conectem, de alguma forma, com os relatos desse diário.

(EM13LGG604) Relacionar as práticas artísticas às diferentes dimensões da vida social, cultural, política e econômica e identificar o processo de construção histórica dessas práticas.

Os diários de Carolina Maria de Jesus parecem fáceis de serem estudados e trabalhados em sala de aula, mas não são. Por isso, recomendo que, antes de ler o livro com seus alunos, você procure vídeos e artigos sobre a obra dessa autora para encontrar a melhor maneira de levá-la para a sala de aula.


Espero que tenham gostado da resenha e das sugestões de atividades.

Compartilhem este post com outros professores e professoras de Língua Portuguesa.

 

Na seção PARA LER NA ESCOLA, você vai sempre encontrar resenhas de livros literários (também conhecidos como paradidáticos) que são adequados para ler com os alunos do Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio. Também haverá sugestões de atividades, exercícios e temas que podem ser trabalhados com os alunos durante a leitura, todas alinhadas às habilidades da Base Nacional do Ensino Médio (BNCC).

 


CASA DE ALVENARIA - VOLUME 1: OSASCO Carolina Maria de Jesus Lançado em 2021, 232 p. Companhia das Letras Com edição integral, ampliada com conteúdo inédito e refeita a partir dos manuscritos originais da autora, este primeiro volume de Casa de alvenaria abarca os meses em que Carolina Maria de Jesus morou em Osasco (SP), em 1960, após deixar a favela do Canindé.


Através deste testemunho precioso que borra as fronteiras dos gêneros literários, acompanhamos a recepção de Quarto de despejo, as viagens de divulgação, o contato frequente com a imprensa e os políticos, o desenvolvimento de seu projeto literário e seu desejo de ser reconhecida como escritora. Dessa narrativa do cotidiano, entremeadas às contradições de seu tempo, emergem reflexões que permanecem mais atuais do que nunca.


Eis aqui Carolina por completo, uma escritora brilhante e sem-par em nossa literatura, que desafiou todas as barreiras impostas por uma sociedade racista e desigual.

Os volumes de Casa de alvenaria podem ser lidos de forma independente.

Indicado para: 9º ano e Ensino Médio Temas: diário, sociedade brasileira, desigualdade social, violência, preconceito linguístico.

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