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Carta aberta à Editora Moderna: o problema de "Jogo Duplo".

Atualizado: 1 de mar. de 2021

ATUALIZAÇÃO 26/02: eu entrei em contato com a Editora Moderna por email e enviei o link desta Carta Aberta. No dia de hoje, recebi uma resposta da editora. Eles agradeceram meu contato e minha leitura criteriosa, explicaram que o livro "foi lançado pela Moderna em 1997, ou seja, há 24 anos. Por tratar de temas tão relevantes, ele ficou datado em um retrato do mundo da década de 1990 - que, concordamos não é mais o de hoje". Além disso, a editora assumiu o compromisso de trabalhar para resolver este problema "com uma avaliação da obra e dos seus conteúdos".

Eu agradeço à Editora Moderna pelo retorno, pelo diálogo que construímos e pelo compromisso assumido.

 

Editora Moderna,


Meu nome é Aline Câmara, sou professora de Língua Portuguesa para turmas do 8º ano em uma escola particular. Recentemente li o livro "Jogo duplo", publicado por vocês com indicação de leitura para 8º e 9º anos, e escrevo para compartilhar algumas impressões de leitura e também fazer um convite à reflexão.


Primeiramente, gostaria de ressaltar que "Jogo duplo" é um livro interessante, que debate dois temas importantes de serem discutidos atualmente: os bastidores do jornalismo e conflitos no Oriente Médio. Por meio da narrativa de Boccanera, podemos entender como funciona a cobertura de grandes acontecimentos internacionais, as decisões nada imparciais que precisam ser feitas e os embates éticos com os quais o jornalista se depara diariamente.


Além disso, o livro nos apresenta um contexto histórico e social pouco conhecido por tratar dos conflitos do Oriente Médio de maneira responsável, sem cair em estereótipos e no jogo do "bem versus mal". A narrativa também é bem construída, prende a atenção do leitor e, com certeza, iria conquistar leitores adolescentes.


No entanto, um incômodo muito grande me acompanhou durante toda a leitura. Como mulher e como feminista, achei muito problemática a maneira como as duas únicas personagens femininas foram construídas pelo autor: XX e XX são, a todo tempo, objetificadas e diminuídas. As duas personagens são valorizadas e elogiadas apenas sob o ponto de vista físico e sexual, enquanto sua performance profissional como jornalistas é desvalorizada - elas são profissionais antiéticas, pouco competentenes e nada confiáveis.


Essas descrições e narrativas se tornam ainda mais problemáticas quando se analisa que, na maioria dos casos, elas não têm nenhum papel no enredo. A personagem XX, por exemplo, é pega no quarto com o jornalista Gustavo e esta cena, a meu ver, não acrescenta em nada na história. Ela poderia ser deletada e o enredo não seria alterado. Questiono, então, qual é o propósito da cena, pretendia-se mostrar que mulheres "não se dão ao valor"?


Conforme os trechos abaixo (apenas alguns dos muitos trechos com problemas que grifei ao longo da leitura) apareciam na minha frente, tentei me imaginar lendo esse livro em voz alta, em uma sala cheia, na frente de minhas alunas de 13-14 anos. Como eu me sentiria? Como as adolescentes se sentiriam? Qual seria a mensagem transmitida a elas? Que uma mulher é incapaz de ser uma boa jornalista já que está sempre pensando em chamar atenção com sensacionalismos? Que mulheres "enganam" homens, porque são golpistas? Que uma mulher jamais daria conta de fazer a cobertura jornalística de um caso semelhante ao do livro?


 

Sobre Olívia Cordeiro:

"Trinta e um anos, bonita, alta, corpo bem-torneado de carioca que sempre leva um biquíni em viagens e que chama a atenção ao usá-lo. (...) O grande sonho de Olívia era ser repórter de tevê e ficar famosa no Brasil, mas um nervosismo incontrolável a torna incapaz de encarar uma câmera." (p. 27)


"Como provavelmente ocorreria em qualquer outra redação, a da TVM suspeita de ligações mais íntimas entre Olívia e o diretor, especulação da qual ela já tomou conhecimento, mas achou conveniente não desmentir."(p. 28)


"(Cláudio) Age sempre com a mesma casualidade com que passa de noite para o quarto de Olívia, saindo de lá só no dia seguinte. Só ela acha que ninguém sabe."(p. 30)


"Olívia não entende ou não aceita que o jornalismo, em televisão, precisa ter cuidado com esses recurso dramáticos." (p. 34)


Sobre Leila Saleb:

"Ao lado do técnico local que coordena as transmissões, uma libanesa chama a atenção de Alex. Cabelos presos, em cachos caindo pelos ombros, pele moreno-escura, como se tivesse um bronzeado tropical permanente, olhos negros faíscantes." (p. 48)


"Pra não falar da saia curta e da blusa estrategicamente desabotoada na frente, expondo visão tentadora." (p. 51)


"Longas pernas com exemplar distribuição de músculos e gorduda, cintura marcada, seios que tentam escapar de um sutiã tão minúsculo quanto a parte inferior do biquíni amarelo." (p. 54)


"É bem verdade que Leila é uma fonte preciosa de informações sobre o caso. Nas últimas horas, entretanto, só lhe serviu mesmo como fonte de prazer." (p. 84)


"e que talvez pudesse ser manipulado pelo encanto de uma libanesa exótica, sexy, com olhos passionais?"(p. 115)


"Pensa em Leila agora não só como mulher-tentação, ms como fonte de notícia". (p. 127)


"Há quem fale de suas roupas elegantes, de sua beleza, de seu sex appeal. Alex poderia acrescentar outros talentos à lista." (p. 180)

 

Ao longo da leitura, fiquei me perguntando se este é um livro que dialoga com a sociedade brasileira do século 21. Nós, mulheres, estamos cada vez mais presentes dentro das universidades e no mercado de trabalho, lutamos para que nossa competência seja valorizada, para que ganhemos os mesmos salários e tenhamos acesso às mesmas oportunidades que os homens. De que modo este livro dialoga com essa realidade se o texto insinua que a personagem XX conseguiu o atual posto de trabalho apenas porque se relaciona sexualmente com superiores?


Eu verifiquei o Manual do professor disponibilizado por vocês no site, na esperança de que houvesse a proposta de alguma atividade que problematizasse essa visão sexista das duas jornalistas, que contextualizasse esse discurso como algo ultrapassado e incoerente com a igualdade de gênero pela qual batalhamos hoje. Mas não há nada, não há nenhuma menção à objetificação da mulher presente na obra.


Diante do exposto, pergunto à editora: qual é o ganho ético, do ponto de vista das mulheres, em se ler e estudar este livro na escola? De que maneira ele pode contribuir para formar cidadãos que contribuam para a construção de uma sociedade melhor?Este é um livro que merecer ser lido pelos seus pontos positivos, mesmo que essa leitura demande o silenciamento dos seus problemas?


Meu objetivo com esta carta não é propor a censura do livro, embora eu não tenha nenhuma pretensão em adotá-lo como leitura das minhas aulas; mas acho necessário que a Editora Moderna encontre meios de sanar este problema. Sugiro, então, algumas possíveis soluções:

  • O lançamento de uma nova edição em que haja notas de rodapé em todos os trechos sexistas, apontando o que há de problemático em cada um deles e situando-os no contexto em que o livro foi escrito/lançado.

  • A atualização do Manual do Professor, com a inclusão de uma sequência de atividades que valorizem profissionais mulheres do jornalismo e que também tenham o objetivo de apontar, analisar e discutir a construção objetificada, desvalorizada e sexista dessas duas personagens; convidando os jovens leitores a uma reflexão sobre a inadequação dessa construção ao debate feminista dos últimos anos e à construção de uma sociedade com igualdade de gêneros, na qual homens e mulheres tenham acesso às mesmas oportunidades, à mesma remuneração e a reconhecimento profissional.


Agradeço antecipadamente a compreensão da Editora Moderna e tenho certeza de que, a partir desta carta, poderemos iniciar um debate sobre os problemas apresentados.


Atenciosamente,

Professora Aline Câmara.

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